sábado, 2 de junho de 2012

Bom demais pra ser verdade

Acordo das mais belas formas que se pode acordar, ao canto dos pássaros. Parece que o canto, fluidifica a alma. Espreguiço-me calmamente, aproveitando cada esticada do corpo. Saio da cama com o pé direito, na intenção de que todo o resto do dia permaneça maravilhoso, assim como está começando. Abro minha janela e recebo aquele calorzinho do sol. – Bom dia, sol! Bom dia, dia! Bom dia, natureza linda que nos pertence!
Caminho até o banheiro. Escovo os dentes, tomo um banho quente, saio de lá, toda animadinha. Sinto-me inspirada pra escrever qualquer coisa, qualquer assunto que me traga mais alegria. Minha criatividade está a mil, sinto-me criativa pra produzir até uma enciclopédia. Mas antes disso, preciso matar o eco responsável pelo meu piedoso e faminto estômago. Preparo uma mesa digna de três pessoas, com frutas, manteiga derretida no pão quentinho, suco de laranja, café cheirando e lá vou eu começar a matar quem está me matando. Afinal, a única coisa que me incomoda no momento é a fome, o resto está divino. Divino até demais. – Estranho eu não ter chutado a cama ainda, ou derramado o café sobre a mesa.
Após o maravilhoso café, coloco a ração do Ruberth, meu gatinho manhoso, e coloco Caetano, pra ocupar o silêncio de minha alegria desconhecida.
Pego lápis, meu bloco de anotações, o notebook e sento-me no tapete da sala. Espero que seja o suficiente pra produzir o texto do dia. Faz quatro dias que não produzo nada. Acho que toda essa minha alegria e inspiração seja útil.
Ao som de Caetano, começo a escrever uma história diferente do que costumo escrever, talvez com um pouco mais de naturalidade e fácil compreensão aos meus leitores. Sorte (ou azar) deles, por não ter que utilizar de força bruta dos neurônios deles, dessa vez.
Já eu, enquanto uso dos meus neurônios pra escrever algo que preste, sou interrompida com uma ligação no celular. Pego o celular, olho quem é, é o Sérgio, um cara que conheci em uma divulgação do livro de uma amiga. Depois da divulgação do livro, saímos pra tomar dois drinks, trocamos telefones e compartilhamos alguns interesses incomuns. Uma pouco mais de uma hora, me arrependi completamente. Acabei tomando quatro drinks e um apelido de “fofinha-grosseira”. Ele tomou sete drinks, e acho que da até pra imaginar o que o influenciou ele a me apelidar indiscretamente assim.  – Puta merda! Tava indo tudo bem, se esse cara chato não viesse perturbar a minha paz. Quem ele acha que é pra me apelidar de “fofinha grosseira”, no primeiro dia que me conhece? Ta na cara que fofinha é sinônimo de gorda! E eu nem to tão gorda assim... Tenho até freqüentado mais as aulas de pilates. Grosseira? Grosseiro é o pai dele! E ele que é estupidamente grosso por tratar uma dama assim. Abusado.
Eu não atendi aquela ligação. Volto a minha concentração, depois de uns pensamentos conturbados por conta desse rapaz, e continuo com o meu texto.
Quinze minutos depois, o celular toca novamente. – Que infelicidade, quem será desta vez? Ele. – Mas que merda esse cara quer comigo? Já não foi o suficiente o chega pra lá que dei nele, naquela noite? Vá tratar outras grosseiramente meu filho. Não que eu deseje isso pra outras, mas que ao menos fale isso pra mulheres de seu nível.
Depois de muita insistência, resolvo atender o celular, soltando faísca pelo nariz, ouvido, boca, vagina, poros, ânus... – Alô? Sérgio? Você não tem o que fazer não, queridão? To trabalhando, não tenho tempo pra você agora. E acho que nem amanhã, nem depois, e nem depois! Eu quero mesmo é que você... Interrompida por Sérgio, ele diz: – Desculpe-me pela aquela noite, eu havia bebido demais. E mesmo que você não tenha tempo pra mim hoje, amanhã, depois e depois, gostaria que soubesse de um projeto que estou desenvolvendo, e acho que estou precisando de uma profissional a seu nível. É um projeto de uma Revista Americana, se tiver interessada na proposta, quando poder e quiser, me retorna. Até breve. Tu-tu-tu-tu-tu.
– Ok, aonde eu enfio a minha cara agora? Senhor Deus, tem como abrir um buraco de 500 mil metros só pra eu soterrar meu cérebro, junto com a minha vergonha?
O cara acaba de me fazer uma proposta indecentemente genial. Enquanto há cinco minutos, eu estava chingando a geração familiar dele toda. Ca-ram-ba! Inacreditável. Acho que foi por isso que acordei alegre. Acordei com pré-alegria. Senti uma alegria antes de receber a notícia. Sei que vai ser de extrema importância pra minha carreira essa experiência. E é claro que vou aceitar essa proposta brilhante. Mas devo ser um pouco orgulhosa, em respeito ao meu ego feminino. Óbvio! Ele me chamou de “fofinha-grosseira”, ainda não me esqueci do apelidinho “carinhoso”.
Parando bem pra pensar, ta meio que estranho tudo isso que está acontecendo. Acordo bem humorada, tudo está dando certo. Será que Deus ouviu minhas preces? Ou será que ele cansou de ouvir: – “Caralho! Meu dedinho! Maldita cama!” e resolveu poupar os ouvidos?
– Cris? Cris?
– Oi, oi Nanda, o que houve?
– Minha filha, tem um tempão que eu te chamo e nada de você acordar. Você não produziu nada até agora. Ficou o tempo todo dormindo em cima das teclas. O máximo que conseguiu hoje foi “aqefgy”, digitada por sua testa.
– Como?
– É querida, passou a manhã ai dormindo. Chega babou de tanto que sonhou.
– Meu Deus! Foi um sonho?
– Do que você ta falando mulher?
– Do Sérgio, da linda manhã, do canto dos pássaros, do som de Caetano, do eco estomacal, do Ruberth, da proposta da revista Americana! Foi sonho? Claro. Bom demais pra ser verdade.  Eu não tenho gato, meu CD de Caetano está arranhado, e que eu me lembre... Não conheço nenhum Sérgio. Não sei por que eu ainda me iludo com essas coisas. Pelo menos, isso me restou uma nova história pra produzir.
Celular toca com o contato chamado Sérgio.