A ama B, que ama C, que ama A.
Moro em São Paulo, divido um apartamento simples com o Bento, no terceiro andar. Temos dois quartos, uma estante de livros um tanto que empoeirada (embora minha rinite não agradeça nem um pouco), sorvete na geladeira, um aquário de molinésias, um grande cabide de cachecóis, no qual o Bento faz coleção e uma vizinha idosa, que me desculpe à ousadia: é chata pra ca-ra-lho. Sou estudante de arquitetura. Tenho dois amigos maravilhosos: o Caio e o Bento. Somos amigos desde a nossa pré-adolescência. Estudávamos no mesmo colégio do bairro, nós tínhamos o mesmo ciclo de amizade, embora a nossa amizade tivesse algo mais forte, e permaneça até os dias de hoje. Perdemos contato com alguns dos nossos velhos amigos, outros não.
O Caio é um produtor de eventos. É um desses rapazes que bebem de vez em quanto um pouco mais do que o normal. Ele é moreno claro, cabelos lisos, porém, levemente ondulados, tem uma boca lindamente desenhada, olhos escuros, uma barba falhada, nem magro, nem gordo, na medida certa. Na maioria das vezes se veste bem, embora dê uns deslizes nas combinações de suas vestimentas, mas nada do que uma ajudinha feminina e a ajuda do Bento não resolvam. Tem um apartamento próximo ao meu, gosta de futebol, livros, Cazuza, e tem um cachorro preguiçoso e gordo, chamado Sebastian.
O Bento faz faculdade de design de moda, como havia dito, divide o apartamento comigo. É um moreno gaiato, adora alfinetar as pessoas, bem crítico. Se veste bem, está sempre antenado as novas tendências masculinas e femininas. Curte tecnologia, festas, som nas alturas, mulheres e principalmente homens. Sim, ele é bissexual.
Nós três sempre saímos quando dá, ou fazemos uma reuniãozinha no meu apartamento, que resulta em muita cachaça, barulho, bagunça e a vizinha chata reclamando. – E ah! Me chamo Ariela, prazer!
Um dia, estávamos eu e o Bento conversando. Ele estava deitado no sofá, e eu enrolada na toalha, escovando os dentes e andando pela casa pra que pudesse ouvir com maior facilidade o diálogo. Ele me confessou que tava sentindo um sentimento diferente por alguém. Mas era um sentimento dessemelhante de amizade, e dessemelhante de quem ele imaginava. Ele tava começando a gostar do Caio. Comecei a rir sem parar, ria tanto que cuspi o creme dental no chão, ri tanto que minha barriga doeu. – O que foi sua vaca? Perguntou ele com tom de ironia. – O Caio? Ele é hétero, acho que não rolaria nada entre vocês. O Caio pega várias por ai, adora essas fodas casuais. Respondi. – Tá, mas quem sabe ele também não curte a ideia? Pergunta o Bento, com esperanças. Corri até ele, me joguei em cima dele e disse: – Está bem gostosão, tenta a sorte! Bento me joga pro lado e vai até a cozinha.
A campainha toca, vou atender, é o Caio. Penso comigo mesma “Não morre mais!”. – E ai lindona, qual a boa? - me observa de cima a baixo - Hm, não precisa nem responder mais. Já vi que a boa está bem na minha frente e de toalha. Diz ele num tom safadamente idiota. – Há, há! – eu ri sarcasticamente - A boa é eu apertar seus “países baixos”. – Opa! Olha que assim eu me apaixono. Insiste ele com as piadas. Sempre trocamos ironias, sarcasmos, safadezas e piadinhas maliciosas. Já virou até rotina. O Bento sai da cozinha perguntando quem foi que havia buzinado e se depara com o Caio. – Oi, oi... Caio. Diz o Bento gaguejando. – Fala Bento! Responde o Caio. Deixo-os na sala conversando enquanto vou me trocar no quarto. Tínhamos combinado de ir a festa de aniversário da Carol, que por sinal já estávamos atrasados.
Me arrumo em 35 minutos mais ou menos. – E ai, vamos meninos? Falo num tom que eles possam olhar pra mim, enquanto eu poso em frente ao quarto, esperando algum mísero elogio dos dois. Caio me olha intensamente pela segunda vez no dia. Só que dessa vez é de baixo pra cima e de cima pra baixo. Apenas esboça algum sussurro, mas desiste de continuar a frase sussurrada e desvia o olhar. Achei até estranho ele não ter pronunciado alguma das suas piadas. O Bento apenas diz: – É, até que ta gatinha. Eu dou um sorriso quase que satisfeita, sabendo que aquele “até que ta gatinha” é um dos elogios mais bem dados pelo Bento. Conheço ele e sei o quanto ele é orgulhoso e crítico. Saímos pra a festa, curtimos loucamente. O Bento se envolve por lá com um carinha da linha dele, em que ele conheceu na pista de dança. O Caio se acaba nas bebidas. E eu, danço até suar, sensualmente no centro da pista, na esperança de que alguém me observe e me deseje. E parece que consigo prender a atenção de um par de olhos masculinos. Olhos embaçados e conhecidos. O do Caio. Ele me olha estranhamente, me secando com os olhos e me chupando mentalmente, como se eu fosse aquelas ultimas gotas de refrigerante, em que tentamos sugar com o canudo. Parece que consigo até ouvir o barulhinho que se faz. Ele larga o copo da bebida em uma mesa qualquer, levanta em minha direção, cambaleando levemente, eu começo a pedir as divindades pra ele não vir realmente até mim. Mas as divindades parecem que se faz de surdas, e o Caio me puxa pela cintura, colando meu corpo com o dele e olha quase dentro de meus olhos, como se fosse se possuir da minha alma. Começa a tocar uma música que não tem nada a ver com a situação, mas que ele sabia a letra e começa a cantar no meu ouvido no idioma referente a música: inglês. Ele canta em inglês, depois italiano, depois português, e volta pro inglês novamente. E faz com que a música se torne propícia pra o que estava acontecendo ali. Penso comigo mesma: “Nunca vi um cara me cantar em tantas línguas”. E por um momento consciente da minha parte, lembro que o cara que me canta é meu amigo. – Caio, o que você ta tentando fazer? Pergunto. Ele não me responde, apenas continua. Pergunto novamente: – Caio! Está me ouvindo? Você está bêbado, pare com isso, por favor. Ele ainda continua, porém dessa vez, tapa minha boca com seus dedos. Passaram-se mais três minutos e ele se descola do meu corpo, me olha novamente e dá um sorriso tímido ao mesmo tempo conquistador. Ele pega um copo na bandeja do garçom e sai pra outra área do ambiente com a mão esquerda no bolso. Eu fico lá parada, no meio da pista, sem reação. Precisava comentar isso com alguém, e só vinha em mente o Bento, mas parecia que o Bento estava muito bem acompanhado e rindo a torto e a direita. Fora que o Bento ia se sentir mal, mesmo que mínimo, mas ia. Afinal, o Bento tava afim do Caio. Procuro algo pra me distrair, nada parecia melhor do que continuar dançando. Passaram-se uma hora e eu não agüentava mais ficar naquela festa. Procuro o Bento, mas o Bento sumiu, deve estar dando pra alguém. Procuro o Caio, e encontro ele sentando em uma poltrona, largado, com os botões da camisa abertos. Começo a chamá-lo pra levar pra casa, numa tentativa de quatro vezes, até que na quarta ele parece dar vida. – Credo, o que a cachaça não faz em? Apoio ele em meu ombro, e jogo ele num táxi. Levo-o pra meu apartamento, pois seria complicado levá-lo pra casa dele, pra depois eu voltar pra minha. Ainda mais que já eram mais de 02h00min da madrugada. Chegando lá, ele começa a cantar em uma língua que desconheço, senta no sofá sozinho. Tento convencê-lo a ir dormir no quarto do Bento, ele aceita. Quando vou abrir a porta, está trancado. Não sei pra que infernos o Bento trancou essa maldita porta. O sofá tem apenas dois lugares, pelo tamanho do Caio, ele não iria caber. Resultado: tive que o deixar dormindo na minha cama. Tirei sua camisa, e seus sapatos, dei um beijo na testa de boa noite e disse baixinho: – Dorme bem seu doido, vou deitar lá no sofá e te deixar dormir aí na minha cama, mas vê se não se acostuma viu safado? Ele segura forte minha coxa e diz: – Vou me acostumar se você não ficar aqui comigo. Ele vai me puxando pra junto dele e me abraça. Eu fico sem reação e me acomodo aquela situação. Bêbados e cansados, acabamos pegando no sono.
Lá pras 04h30min, eu acordo com beijos no pescoço. Dou um breve grito, interrompido e abafado com sua mão. Ele fica com o rosto próximo ao meu em silêncio. Minha respiração fica ofegante e meus olhos de susto começam a desaparecer. Parece rolar um clima ali. Era estranho, pois nos conhecíamos à anos, muitos anos. Mas ao mesmo tempo consigo nos ver como um homem e uma mulher que estão se atraindo, sem compromisso, assim como ele não tem compromisso com as outras mulheres em que ele se envolve. Não posso negar que o Caio é um cara extremamente atraente, e a sua barba falhada... Minha nossa, me excitava só de lembrar.
Caio foi tirando minhas roupas, sem pressa. Fui tirando as vestimentas dele também, parecia que a química que estava havendo era algo imaginável, fizemos sexo. Mas, mais parecia que fizemos amor. Porque foi a melhor transa que eu havia tido na minha vida. Foi uma transa recíproca, parecia tudo recíproco. Depois dos maravilhosos momentos, dormimos.
As 08h00min da manhã, o Bento chega. E como a porta do meu quarto havia ficado aberta, ele ver o Caio e eu dormindo juntos. Devido ao barulho que ele faz, eu levando pra ver o que é. E o vejo com uma cara de decepção. Como se eu tivesse o traído. Me sinto dividida, como se metade de mim estivesse péssima, e a outra metade realizada. O Caio levanta meio sem graça e procura entender o que estava acontecendo. Começamos uma discussão entre os três. O Bento confessa que tava gostando do Caio, o Caio fica confuso com aquilo, e começa a interrogar o Bento com indignação: – Você ta louco cara? Somos amigos! – Amigos? Somos tão amigos que você transou com a Ariela! Velho, ninguém manda nos sentimentos não. Você acha que eu realmente queria gostar de você? Não cara, eu não queria. Mas aconteceu que eu comecei a gostar! Diz o Bento, com um tom alterado. Eu me mantenho calada nisso tudo, tenho a certeza que será pior se eu me meter nessa discussão. Depois de quase um minuto de silêncio, o Caio se veste, e sai, batendo a porta.
Sei que o que aconteceu entre o Caio e eu, foi algo despretensioso, e por mais que ele seja atraente e gostoso, não sinto mais nada além de atração e amizade.
Uma semana e meia se passaram, nós tínhamos nos resolvido. Fiquei feliz por isso, não queria ver discórdia ou rancor entre nós.
Um dia desses estava vindo da faculdade, eram em torno de umas 18h00min, passei num barzinho com umas amigas e bebemos um pouco pra aliviar o stress. Conversamos sobre ménage à trois, e essas loucuras que as pessoas fazem em cima da cama. Rimos bastante com esses assuntos até dar a hora deu ir pra casa. Cheguei em casa, coloquei as coisas em cima da mesa, junto com as chaves. Fui à cozinha beber um copo d’água, depois fui ao quarto do Bento ver se ele estava em casa. Me deparo com uma cena visivelmente estranha aos meus olhos. Encontro ali, na cama do Bento, o Bento e o Caio. Eles estavam fazendo sexo. Fiquei sem reação em uma contagem de vinte segundos. Saí de fininho, especulando mentalmente o que fez o Caio mudar de ideia. Pra mim, ele era hétero e não havia possibilidade alguma daquilo acontecer. Mas logo me veio em mente aquela conversa que tive com minhas amigas sobre a ménage à trois, e como eu já estava mais pra lá do que cá, devido às bebidas, resolvi fazer uma loucura quase que impensada. Tirei toda a minha roupa, as joguei em cima do sofá, cautelosamente pra não fazer barulho algum. Fiquei completamente nua, fui em direção ao quarto do Bento, abri um pouco mais a porta e dei duas batidas. Fiquei lá em frente à porta, com uma parte do meu corpo encostada-se na porta, esperando a reação deles. Eles param assustados imediatamente o que estavam fazendo, ficaram sem reação por eu flagrar eles naquela situação e sem reação por verem eu assim, desnuda, parada. Eles não entendem. – ménage à trois, alguém já ouviu falar? Pergunto a eles. Eles olham um pro outro e começam a rir. Uma breve risada. O Caio diz: – Acho que você está perdendo tempo aí parada, deveria vir logo. O Bento achava meio estranho, pois se era sexo a três, ele iria ter que transar comigo também, e eu não sou bem o tipo dele. Ele não era obrigado, mas com o ocorrido da transa, ele se sentiu a vontade e esboçou até uma reação de quem estava gostando daquilo tudo. Depois disso, houve outras vezes nossas transas à três. E descobri que o Bento me dava muito mais prazer do que o Caio.
Com o tempo notei que o Bento me conquistou na cama, e passei a sentir além de desejo e amizade por ele, paixão. Porém, o Bento só gosta de mim como amiga e parceira de transa. Ele gosta mesmo é do Caio, e da forma grosseira que o Caio pega ele na cama. O Caio não sente paixão pelo Bento, apenas prazer e um sentimento de amizade. O Caio tinha fissura mesmo é por mim, ele sempre me olhava diferente, e sorri feito bobo com minhas idiotices. Ele sente tudo por mim, inclusive paixão. Tenho certeza. Ficamos nessa vida distorcida, e nesses amores não correspondidos por três meses. Até que um dia paramos e vimos que não estava mais tão legal como quando começou. Éramos um apaixonado pelo outro, mas uma paixão que não se correspondia. Resolvemos voltar ao que éramos antes, mesmo sabendo que eu amava o Bento, o Bento amava o Caio e o Caio me amava.