segunda-feira, 25 de junho de 2012

Pra não ter nuance

Senti o teu cheiro antes de dormir, procurei a tua fragrância rastejante pelo ar. Engano-me. Procuro novamente, na sala, na cozinha, no escritório e na varanda. Mas percebo que quanto mais eu me distancio do quarto, teu aroma se esconde.
Sufoco-me no travesseiro, e encontro o teu perfume que me deixou de lembrança. Poderia durar eternamente aquele cheiro. Parecia que eu tinha você ali, deitado comigo. Era um cheiro que eu queria ter sempre junto a mim, onde eu fosse. A qualquer lugar. Eu seria incapaz de enjoar e fazer descaso. Eu seria capaz de multiplicar aquele aroma. Eu seria grata em transformar o teu cheiro em você.
Consolo-me abraçando aquela almofada grande e aquecendo-a com meu calor. Mantendo-o mais próximo de mim. Não queria que meu olfato sofresse qualquer sutil diferença, uma nuance, perante o seu aroma. Eu queria estatuar, guardar, petrificar se for preciso, só pra te ter de alguma maneira perto de mim quando eu quisesse.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sonhando acordada

Coloco aquela música que me lembra você. Começo a ouvir atentamente cada letra, cada ritmo, cada espaço de tempo em uma frase e outra e sinto. E sinto uma paz interior. A mesma paz que você me traz quando estamos juntos, quietinhos, abraçados. Paro conscientemente na esperança de imaginar seu jeito tímido e calado, o formato de seu rosto, seus olhos castanhos, com traços que me encantam.  E subitamente me vem o rosto de outro alguém, um alguém com olhos também castanhos e de traços que me agradam, contemplado de um sorriso exuberantemente lindo, expressivo, assim como os seus, vistos por mim todos os dias naquela foto emoldurada. E eu fico confusa, porque são dois rostos masculinos e atraentes, que me deixa em dúvida, sem saber qual deles eu realmente quero. Troco pra uma segunda música que só me faz lembrar ainda mais do segundo rosto. E me vejo tocando a pele lisa e nova. Eu o abraço, eu danço a dois, eu sinto o cheiro. E enquanto isso me apaixono por aquele momento. Mas é só a música acabar, que a paixão momentânea desaba.
Vejo-me já nos braços do primeiro rosto após o fim da música. Luto e reluto pra acordar desses pensamentos, pra sair daquele olhar fixo, acordado e adormecido ao mesmo tempo. Não encontro maneiras pra tirar de minhas vistas sonhadoras os rostos. Aguardo aqui, sentada, a música acabar, até os meus olhos despertarem.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Longe de ti te amo mais

Sabe quando você precisa tomar certas decisões, mesmo que não querendo? Que você sabe que vai machucar o coração de certas pessoas e inclusive o seu? E sabe quando você faz isso, machuca o coração da pessoa, se machuca, mas não pode voltar atrás porque já decidiu e foi o correto a se fazer? Pois é. Estou passando por uma fase dessas ultimamente. E digo mais: Não está nada fácil.
Você acha que pra mim é fácil, mas não. Você acha que quem ama resiste a tudo e encara as situações de qualquer jeito. Mas, pare pra pensar: Eu estou encarando uma situação que eu não gostaria de encarar. Estou fazendo isso por nós e não somente por mim. Se permanecêssemos como estávamos ia ser pior. Você sabe de nós, muito mais do que qualquer outra pessoa.
Eu precisava de um tempo pra mim, pra meu bem estar, pra respirar, pra conhecer. Preferi te machucar dessa maneira do que de uma maneira pior. Pelo menos eu tenho a certeza que você me perdoaria assim, de outra maneira já não sei. Não queria algo forçado, não seria legal se um se sentisse bem, enquanto o outro omitisse felicidade. E eu sei que você se orgulha de minha sinceridade. Fui sincera contigo. Não fiz isso por maldade, muito menos por desamor.
Nós temos uma ligação extraordinária, jamais comparada a outros. Parece que temos um vínculo de outras vidas, e parece também que criamos uma dependência um pelo outro. Mesmo que a gente brigue, se bata, se odeie, mas depois um ou o outro vai pegar o telefone e dizer um pouco mais de desaforos e finalizar com um sorriso e duas frases: “Que idiota”, “eu te amo tanto”. E talvez seja por isso que eu nunca consegui desisti de nós.
Vou viver meu bem, um pouco menos sem você. Sim, sei que são tristes essas palavras. Mas fará um bem pra nós futuramente. Vou viver contigo em pensamentos, em sentimentos, na alma e no coração. Não quero te perder em vão, não mesmo. Por isso vou deixar aos teus olhos, de vez em quando aos teus ouvidos, um eu te amo, todos os dias. Pra que você possa lembrar sempre de mim, um momento a cada dia. Mas eu volto, volto já, quando você menos esperar. Só vou visitar novas pessoas e provar pra mim que não existe ninguém melhor que você. Ninguém que me escute, me agüente, me faça rir, me mime, me faça feliz, me inspire, me faça sentir a mulher mais linda e especial do mundo.
E digo mais uma coisa: Lembra daquele segredo que eu disse ter, mas que escondi de você? Pois bem meu amor, quanto mais longe eu ficar de ti e parecer que eu te tenho menos, mais meu amor por ti engrandece, cresce e dá frutos.

Nossa doce tarde

O céu não estava tão azul assim, o sol não brilhava tanto e o dinheiro não era muito. Mas nada disso se compara com um dia colorido, quente e rico, feito por nós dois.
Fomos à nossa velha lanchonete, comer o nosso velho pedido, pra matar a saudades dos nossos velhos tempos. Passava-se um filme em nossa cabeça. Ficamos lembrando e relembrando detalhes de nossos momentos vividos ali há um tempo, várias vezes. Por mais simples que fosse, era o lugar mais aconchegante e romântico para nós. Só faltava chover e meu guarda-chuva ter goteiras, pra ficar mais característico. Seria tão nós. Trocamos alguns carinhos fofos, alguns beijos tímidos e risos constantes.
Depois disso, viemos aqui pra casa assistir um filme. Arrastamos o sofá pra ficar mais próximo da TV e nos entupimos de mais guloseimas. É tão bom me entupir de guloseimas com você. Me sinto uma criança. E como sem culpa de engordar. Engordar, só se for de amor.
Ficamos coladinhos, trocamos mais carinhos. Era tudo tão doce quanto à torta que comemos. Eu não queria que acabasse nunca esse momento. Que o dia não terminasse. Nossa felicidade prolongasse. O tempo parasse. Só pra a gente ficar juntinhos, olhando um pro outro e rindo de qualquer besteira. Não troco nada por esses momentos com você, e não quero nunca poder dizer que sinto falta de tudo isso. Falem o que quiser, mas nosso amor poderia durar a cada novo amanhecer. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Depois do temporal

Desculpe-me. Mas acho que não estou bem, não estou normal. Minhas atitudes ultimamente, não condizem ao meu eu. Não quero que você pense que eu sou só mais uma que passou em sua vida, ou que eu esteja me transformando numa louca psicótica. Eu apenas não estou conseguindo ser eu mesma. Acho que vou culpar os problemas. Sei que metade não é somente culpa minha.
É tão confuso quando precisamos tomar certas decisões que põe em risco algumas pessoas, principalmente o nosso amor. Tenho medo das coisas que podem ser perdidas. Mais medo ainda quando é uma decisão que precisa ser tomada, mas que não quero tomar. É como se eu tivesse doente e precisasse tomar um remédio ruim. Eu não quero tomar o remédio porque é amargo. Sei que enquanto eu o ingiro é ruim, mas o gosto amargo passará, e o remédio fará efeito e logo ficarei bem. Assim também quando o temporal chega. Ele vem acabando, destruindo tudo, deixando tristeza. Mas quando ele passar vai abrir um lindo dia ensolarado, e tudo também ficará bem.
É preciso passar por situações assim na vida. Nada vem de mão beijada. E pra que um dia sua mão seja beijada, é necessário sacrificar um, ou dois. Mesmo que dure um determinado tempo. Ser forte e ter maturidade suficiente pra saber que é preciso esperar o seu tempo certo. Pra depois sentir o efeito do remédio, ver o dia brilhando com o sol.
Mesmo sendo madura pra entender que no meio de tudo corre o tempo, ainda não consigo administrar essa decisão que me causa sofrimento e angustias. Tento ainda me mostrar forte em tua presença, mas sei bem o quanto me conhece, e sabe, e sente que eu não sou tão forte assim. Que essa armadura superficial que apresento é insuficiente e inexistente. Não existe armadura. Sou tão frágil quanto à pena. Toda essa exibição de fortaleza é só fachada e orgulho metido.
Estraçalho-me mentalmente, quando me deparo por instantes nessa situação em que nos encontro. Podem até me chamar de dramática. Mas se o amor está no coração, embora eu discorde, acho que o meu está subindo pra cabeça.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Distorção do romance

A ama B, que ama C, que ama A.
Moro em São Paulo, divido um apartamento simples com o Bento, no terceiro andar. Temos dois quartos, uma estante de livros um tanto que empoeirada (embora minha rinite não agradeça nem um pouco), sorvete na geladeira, um aquário de molinésias, um grande cabide de cachecóis, no qual o Bento faz coleção e uma vizinha idosa, que me desculpe à ousadia: é chata pra ca-ra-lho. Sou estudante de arquitetura. Tenho dois amigos maravilhosos: o Caio e o Bento. Somos amigos desde a nossa pré-adolescência. Estudávamos no mesmo colégio do bairro, nós tínhamos o mesmo ciclo de amizade, embora a nossa amizade tivesse algo mais forte, e permaneça até os dias de hoje. Perdemos contato com alguns dos nossos velhos amigos, outros não.
O Caio é um produtor de eventos. É um desses rapazes que bebem de vez em quanto um pouco mais do que o normal. Ele é moreno claro, cabelos lisos, porém, levemente ondulados, tem uma boca lindamente desenhada, olhos escuros, uma barba falhada, nem magro, nem gordo, na medida certa. Na maioria das vezes se veste bem, embora dê uns deslizes nas combinações de suas vestimentas, mas nada do que uma ajudinha feminina e a ajuda do Bento não resolvam. Tem um apartamento próximo ao meu, gosta de futebol, livros, Cazuza, e tem um cachorro preguiçoso e gordo, chamado Sebastian.
O Bento faz faculdade de design de moda, como havia dito, divide o apartamento comigo. É um moreno gaiato, adora alfinetar as pessoas, bem crítico. Se veste bem, está sempre antenado as novas tendências masculinas e femininas. Curte tecnologia, festas, som nas alturas, mulheres e principalmente homens. Sim, ele é bissexual.
Nós três sempre saímos quando dá, ou fazemos uma reuniãozinha no meu apartamento, que resulta em muita cachaça, barulho, bagunça e a vizinha chata reclamando. – E ah! Me chamo Ariela, prazer!
Um dia, estávamos eu e o Bento conversando. Ele estava deitado no sofá, e eu enrolada na toalha, escovando os dentes e andando pela casa pra que pudesse ouvir com maior facilidade o diálogo. Ele me confessou que tava sentindo um sentimento diferente por alguém. Mas era um sentimento dessemelhante de amizade, e dessemelhante de quem ele imaginava. Ele tava começando a gostar do Caio. Comecei a rir sem parar, ria tanto que cuspi o creme dental no chão, ri tanto que minha barriga doeu.  – O que foi sua vaca? Perguntou ele com tom de ironia. – O Caio? Ele é hétero, acho que não rolaria nada entre vocês. O Caio pega várias por ai, adora essas fodas casuais. Respondi. – Tá, mas quem sabe ele também não curte a ideia? Pergunta o Bento, com esperanças. Corri até ele, me joguei em cima dele e disse: – Está bem gostosão, tenta a sorte! Bento me joga pro lado e vai até a cozinha.
A campainha toca, vou atender, é o Caio. Penso comigo mesma “Não morre mais!”. – E ai lindona, qual a boa? - me observa de cima a baixo - Hm, não precisa nem responder mais. Já vi que a boa está bem na minha frente e de toalha. Diz ele num tom safadamente idiota. – Há, há! – eu ri sarcasticamente - A boa é eu apertar seus “países baixos”. – Opa! Olha que assim eu me apaixono. Insiste ele com as piadas. Sempre trocamos ironias, sarcasmos, safadezas e piadinhas maliciosas. Já virou até rotina. O Bento sai da cozinha perguntando quem foi que havia buzinado e se depara com o Caio. – Oi, oi... Caio. Diz o Bento gaguejando. – Fala Bento! Responde o Caio. Deixo-os na sala conversando enquanto vou me trocar no quarto. Tínhamos combinado de ir a festa de aniversário da Carol, que por sinal já estávamos atrasados.
Me arrumo em 35 minutos mais ou menos. – E ai, vamos meninos? Falo num tom que eles possam olhar pra mim, enquanto eu poso em frente ao quarto, esperando algum mísero elogio dos dois. Caio me olha intensamente pela segunda vez no dia. Só que dessa vez é de baixo pra cima e de cima pra baixo. Apenas esboça algum sussurro, mas desiste de continuar a frase sussurrada e desvia o olhar. Achei até estranho ele não ter pronunciado alguma das suas piadas. O Bento apenas diz: – É, até que ta gatinha. Eu dou um sorriso quase que satisfeita, sabendo que aquele “até que ta gatinha” é um dos elogios mais bem dados pelo Bento. Conheço ele e sei o quanto ele é orgulhoso e crítico. Saímos pra a festa, curtimos loucamente. O Bento se envolve por lá com um carinha da linha dele, em que ele conheceu na pista de dança. O Caio se acaba nas bebidas. E eu, danço até suar, sensualmente no centro da pista, na esperança de que alguém me observe e me deseje.  E parece que consigo prender a atenção de um par de olhos masculinos. Olhos embaçados e conhecidos. O do Caio. Ele me olha estranhamente, me secando com os olhos e me chupando mentalmente, como se eu fosse aquelas ultimas gotas de refrigerante, em que tentamos sugar com o canudo. Parece que consigo até ouvir o barulhinho que se faz. Ele larga o copo da bebida em uma mesa qualquer, levanta em minha direção, cambaleando levemente, eu começo a pedir as divindades pra ele não vir realmente até mim. Mas as divindades parecem que se faz de surdas, e o Caio me puxa pela cintura, colando meu corpo com o dele e olha quase dentro de meus olhos, como se fosse se possuir da minha alma. Começa a tocar uma música que não tem nada a ver com a situação, mas que ele sabia a letra e começa a cantar no meu ouvido no idioma referente a música: inglês. Ele canta em inglês, depois italiano, depois português, e volta pro inglês novamente. E faz com que a música se torne propícia pra o que estava acontecendo ali. Penso comigo mesma: “Nunca vi um cara me cantar em tantas línguas”. E por um momento consciente da minha parte, lembro que o cara que me canta é meu amigo. – Caio, o que você ta tentando fazer? Pergunto. Ele não me responde, apenas continua. Pergunto novamente: – Caio! Está me ouvindo? Você está bêbado, pare com isso, por favor. Ele ainda continua, porém dessa vez, tapa minha boca com seus dedos. Passaram-se mais três minutos e ele se descola do meu corpo, me olha novamente e dá um sorriso tímido ao mesmo tempo conquistador. Ele pega um copo na bandeja do garçom e sai pra outra área do ambiente com a mão esquerda no bolso. Eu fico lá parada, no meio da pista, sem reação. Precisava comentar isso com alguém, e só vinha em mente o Bento, mas parecia que o Bento estava muito bem acompanhado e rindo a torto e a direita. Fora que o Bento ia se sentir mal, mesmo que mínimo, mas ia. Afinal, o Bento tava afim do Caio. Procuro algo pra me distrair, nada parecia melhor do que continuar dançando. Passaram-se uma hora e eu não agüentava mais ficar naquela festa. Procuro o Bento, mas o Bento sumiu, deve estar dando pra alguém. Procuro o Caio, e encontro ele sentando em uma poltrona, largado, com os botões da camisa abertos. Começo a chamá-lo pra levar pra casa, numa tentativa de quatro vezes, até que na quarta ele parece dar vida. – Credo, o que a cachaça não faz em? Apoio ele em meu ombro, e jogo ele num táxi. Levo-o pra meu apartamento, pois seria complicado levá-lo pra casa dele, pra depois eu voltar pra minha. Ainda mais que já eram mais de 02h00min da madrugada. Chegando lá, ele começa a cantar em uma língua que desconheço, senta no sofá sozinho. Tento convencê-lo a ir dormir no quarto do Bento, ele aceita. Quando vou abrir a porta, está trancado. Não sei pra que infernos o Bento trancou essa maldita porta. O sofá tem apenas dois lugares, pelo tamanho do Caio, ele não iria caber. Resultado: tive que o deixar dormindo na minha cama. Tirei sua camisa, e seus sapatos, dei um beijo na testa de boa noite e disse baixinho: – Dorme bem seu doido, vou deitar lá no sofá e te deixar dormir aí na minha cama, mas vê se não se acostuma viu safado? Ele segura forte minha coxa e diz: – Vou me acostumar se você não ficar aqui comigo. Ele vai me puxando pra junto dele e me abraça. Eu fico sem reação e me acomodo aquela situação. Bêbados e cansados, acabamos pegando no sono.
Lá pras 04h30min, eu acordo com beijos no pescoço. Dou um breve grito, interrompido e abafado com sua mão. Ele fica com o rosto próximo ao meu em silêncio. Minha respiração fica ofegante e meus olhos de susto começam a desaparecer. Parece rolar um clima ali. Era estranho, pois nos conhecíamos à anos, muitos anos. Mas ao mesmo tempo consigo nos ver como um homem e uma mulher que estão se atraindo, sem compromisso, assim como ele não tem compromisso com as outras mulheres em que ele se envolve. Não posso negar que o Caio é um cara extremamente atraente, e a sua barba falhada... Minha nossa, me excitava só de lembrar.
Caio foi tirando minhas roupas, sem pressa. Fui tirando as vestimentas dele também, parecia que a química que estava havendo era algo imaginável, fizemos sexo. Mas, mais parecia que fizemos amor. Porque foi a melhor transa que eu havia tido na minha vida. Foi uma transa recíproca, parecia tudo recíproco. Depois dos maravilhosos momentos, dormimos.
As 08h00min da manhã, o Bento chega. E como a porta do meu quarto havia ficado aberta, ele ver o Caio e eu dormindo juntos. Devido ao barulho que ele faz, eu levando pra ver o que é. E o vejo com uma cara de decepção. Como se eu tivesse o traído. Me sinto dividida, como se metade de mim estivesse péssima, e a outra metade realizada. O Caio levanta meio sem graça e procura entender o que estava acontecendo. Começamos uma discussão entre os três. O Bento confessa que tava gostando do Caio, o Caio fica confuso com aquilo, e começa a interrogar o Bento com indignação: –  Você ta louco cara? Somos amigos! – Amigos? Somos tão amigos que você transou com a Ariela! Velho, ninguém manda nos sentimentos não. Você acha que eu realmente queria gostar de você? Não cara, eu não queria. Mas aconteceu que eu comecei a gostar! Diz o Bento, com um tom alterado. Eu me mantenho calada nisso tudo, tenho a certeza que será pior se eu me meter nessa discussão.  Depois de quase um minuto de silêncio, o Caio se veste, e sai, batendo a porta.
Sei que o que aconteceu entre o Caio e eu, foi algo despretensioso, e por mais que ele seja atraente e gostoso, não sinto mais nada além de atração e amizade.
Uma semana e meia se passaram, nós tínhamos nos resolvido. Fiquei feliz por isso, não queria ver discórdia ou rancor entre nós.
Um dia desses estava vindo da faculdade, eram em torno de umas 18h00min, passei num barzinho com umas amigas e bebemos um pouco pra aliviar o stress. Conversamos sobre ménage à trois, e essas loucuras que as pessoas fazem em cima da cama. Rimos bastante com esses assuntos até dar a hora deu ir pra casa. Cheguei em casa, coloquei as coisas em cima da mesa, junto com as chaves. Fui à cozinha beber um copo d’água, depois fui ao quarto do Bento ver se ele estava em casa. Me deparo com uma cena visivelmente estranha aos meus olhos. Encontro ali, na cama do Bento, o Bento e o Caio. Eles estavam fazendo sexo. Fiquei sem reação em uma contagem de vinte segundos. Saí de fininho, especulando mentalmente o que fez o Caio mudar de ideia. Pra mim, ele era hétero e não havia possibilidade alguma daquilo acontecer.  Mas logo me veio em mente aquela conversa que tive com minhas amigas sobre a ménage à trois, e como eu já estava mais pra lá do que cá, devido às bebidas, resolvi fazer uma loucura quase que impensada. Tirei toda a minha roupa, as joguei em cima do sofá, cautelosamente pra não fazer barulho algum. Fiquei completamente nua, fui em direção ao quarto do Bento, abri um pouco mais a porta e dei duas batidas. Fiquei lá em frente à porta, com uma parte do meu corpo encostada-se na porta, esperando a reação deles. Eles param assustados imediatamente o que estavam fazendo, ficaram sem reação por eu flagrar eles naquela situação e sem reação por verem eu assim, desnuda, parada. Eles não entendem. – ménage à trois, alguém já ouviu falar? Pergunto a eles. Eles olham um pro outro e começam a rir. Uma breve risada. O Caio diz: – Acho que você está perdendo tempo aí parada, deveria vir logo. O Bento achava meio estranho, pois se era sexo a três, ele iria ter que transar comigo também, e eu não sou bem o tipo dele.  Ele não era obrigado, mas com o ocorrido da transa, ele se sentiu a vontade e esboçou até uma reação de quem estava gostando daquilo tudo. Depois disso, houve outras vezes nossas transas à três. E descobri que o Bento me dava muito mais prazer do que o Caio.
Com o tempo notei que o Bento me conquistou na cama, e passei a sentir além de desejo e amizade por ele, paixão. Porém, o Bento só gosta de mim como amiga e parceira de transa. Ele gosta mesmo é do Caio, e da forma grosseira que o Caio pega ele na cama. O Caio não sente paixão pelo Bento, apenas prazer e um sentimento de amizade. O Caio tinha fissura mesmo é por mim, ele sempre me olhava diferente, e sorri feito bobo com minhas idiotices. Ele sente tudo por mim, inclusive paixão. Tenho certeza. Ficamos nessa vida distorcida, e nesses amores não correspondidos por três meses. Até que um dia paramos e vimos que não estava mais tão legal como quando começou. Éramos um apaixonado pelo outro, mas uma paixão que não se correspondia. Resolvemos voltar ao que éramos antes, mesmo sabendo que eu amava o Bento, o Bento amava o Caio e o Caio me amava.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Só hoje

Hoje eu acordei nostálgica, com saudades de tudo e todo mundo. Saudades de minha infância, de momentos maravilhosos, de pessoas queridas, e até as esquecidas. Lembrando e relembrando fotografias e gravações. Bebidas e zoações. Hoje eu to distribuindo amor pra todo mundo, se quiser te levo um balde.
Hoje eu to apaixonada, hoje eu caso com minha felicidade se for preciso. Hoje eu to assim, alegre e convidativa. Hoje eu quero respirar o bom cheiro do dia florido. Hoje eu quero ver o pôr-do-sol deitar do lado de cá, hoje eu quero ouvir o barulho do mar, catar umas conchas, fazer um lindo colar.
Hoje eu to assim, quem vier comigo vai também sentir. Essa nostalgia e alegria que me envolve completamente, e me deixa com esse ar de bobeira aparente. Hoje eu quero pisar na grama, ouvir alguém dizer que me ama. Hoje eu quero saborear o que tem de melhor, soltar os cabelos, deixar o vento bagunçar até dar nó.
Hoje eu não to ligando, hoje nada me perturba, hoje nada me faz sentir dor. To passando de casa em casa, e deixando um pouquinho desse meu amor. Mas aproveita que é só hoje, quem sabe amanhã tudo mude por conta de algum simples temor. 

Sorte no amor não é ventura

Sorte no amor não é comigo, embora o romantismo seja característica minha. Já tive alguns amores, alguns romances, algumas mulheres, porém, nunca vivi um. Nunca vivi um porque ainda não sei o que é viver um amor, não sei onde encontrá-lo. Talvez o amor seja algo que andamos procurando, mas não somos maduros o suficiente para encontrar. É que sendo sincero, não valorizamos o amor que temos, ou o amor que temos não nos valoriza. Creio que pra viver um, precise de mais responsabilidade, mais compreensão, reciprocidade. Creio. Pode até ser um pensamento machista da minha parte, mas é um pensamento a ser analisado. Não tenho total certeza se realmente é assim, mas os amores que tive, findaram por não terem sidos providos dessas exigências básicas.
Sorte no amor parece não ser a sorte de ninguém. As pessoas não são maduras o suficiente pra cuidar e direcionar um amor. Refiro-me a uma sorte com outro significado, não a ventura, mas, a um dom, sabedoria, amadurecimento. Isso é ter sorte. Sorte aqueles que sabem ser recíprocos, que sabem valorizar e ser valorizados. Sorte aqueles que sabem ver amor nas coisas, nas palavras na natureza, em todas as coisas boas. Jovens ou velhos, enquanto vivermos pode-se ter a sorte de encontrar o amor. E de viver, presenciar o amor, falar amor, fazer com amor, a todo o momento. Basta sentir e olhar um pouco mais ao redor. Basta ter sorte e não ventura.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Seria exímio

Seria bom se as coisas fossem mais diferentes.
As familiares fossem mais presentes.
Os amigos mais unidos e contentes.
As pessoas fossem menos inconseqüentes.
O amor fosse mais doce e conveniente.

Seria melhor se cada um amasse mais o próximo,
E cada um quisesse ser mais dócil.
Se cada um mostrasse mais alegria, cantando juntos a uma alegoria.
Se cada um falasse também inglês, além de romeno e japonês.

Seria ótimo se a vida tivesse a inocência do sorriso de uma menina.
Onde estrofes houvesse rimas.
Ditas como as belas palavras acima.
Uma vida sem explosões e bombas de Hiroshima.

Seria legal se o olhar de cada um fosse por igual.
Sem preconceitos e julgamentos por mal.
Sem violência e uma morte fatal.
E que houvesse melhoras, mesmo que gradual.

Seria maravilhoso, se todo domingo houvesse um amistoso.
As crianças das ruas vivessem em um lar mais amoroso.
O menino tivesse o que comer, mais estudos e fosse argucioso.
O homem de terno deixasse de ser ambicioso.
E o nosso país, um lugar afetuoso.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Acho que perdi meu controle

Descontrolada parece ser a palavra que tem me definido melhor. Acho que perdi o controle de meus planos, de meus pensamentos, de minhas palavras, de minhas atitudes, de minha vida. Minha cabeça está um pouco conturbada. Penso setenta e duas vezes no mesmo pensamento, não consigo nem mudar o canal dessa sentença. Por mais que eu bata contra a mão o controle, ou minha própria cabeça, isso parece não ser eficaz.
Penso em esquecer o que me tormenta, mas quando tento esquecer o que me tormenta, lembro que pensei no que tormenta pra esquecer. Logo, penso no que me tormenta novamente. É confuso pra mim, assim como deve estar sendo confuso pra você entender o que me tormenta. Parece não existir algo que me ajude. Músicas, filmes, conversas, bebidas, leituras, reflexões, ioga, meditação, livros de auto-ajuda... Nenhumas dessas coisas parecem ser suficientes pra preencher meus canais ultimamente (mas só parece).
Mas o que me tormenta? Nada. Simplesmente nada. E é isso que me tormenta. Eu não consigo pensar em nada, está meio vazio, chega soa eco em minha mente. Isso me incomoda drasticamente. É muita monotonia, mesmos assuntos, mesmas discussões sem uma concordância final, religião e futebol, nem se fala. Mesmas notícias nos jornais, mesmos programas com os mesmos quadros. E as mesmas mulheres fazendo propagandas de suas bundas e seios de borracha, na intenção de trazer audiência pra emissora. Mesmas greves, mesmos políticos corruptos, mesmas piadas sem graças. Eca! Cansei disso. Ta tudo um nada. Uma bela bosta. Um saco vazio sem informações.
E você pode estar me chamando de louca varrida neste momento. Pois me chame até de louca catada. Eu sou louca mesmo. É que as coisas uma hora cansam. E aproveitando que meu controle anda perdido, gostaria de lhe oferecer um conselho um pouco que ousado: – Tira o rabo da cadeira, do sofá, de onde seja, e vá contemplar sua mente com coisas mais produtivas, ao invés de ser hipnotizado pelas mesmas informações banais todos os dias. Bom, se é que uma bunda gigante plastificada possa ser chamar de informação.
E enquanto eu não criar um novo botão no meu controle virtual pra clarear o meu tormento, eu vou ficar assim, atormentada.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Esperança realmente é a ultima que morre

Comemoramos nosso terceiro ano de aniversário. Queríamos esquecer todos os estresses dos dias de trabalho, e curtir um dia feliz, só nosso. Planejamos um lindo dia, onde houvesse muito amor, alegria, risos, beijos ardentes e carinhos. Era o nosso dia, nada poderia dar errado.
Marcamos de nos encontrar no Park Villa, próximo da lanchonetezinha onde freqüentávamos tempos atrás. Ele chegou primeiro, em seguida cheguei também. Nos parabenizamos e nos contemplamos com um beijo daqueles e mais alguns selinhos. Seguimos ao nosso roteiro: fomos ao museu, depois a um restaurante maravilhoso, assistimos ao espetacular por do sol, em seguida fomos pra meu apartamento. Saiu tudo perfeitamente lindo.
Nesse dia, eu tinha certeza absoluta que ele era o amor da minha vida. Eu sinto que o amo de verdade e não duvido do que sinto por ele. Somos felizes, nos completamos, gostamos quase das mesmas coisas, das mesmas musicas. Fazemos promessas um ao outro, criamos planos pra o nosso futuro. E sim, ele é o amor da minha vida.
Ele não é bem um daqueles caras que riem por qualquer coisa, ou que aparenta felicidade ao estar do meu lado. Creio que seja algo relacionado à personalidade que ele tem. Mas é um cara bem inteligente e curte The Smiths. Confesso que isso me intriga um pouco, pois tenho medo dessa seriedade ser algo relacionado à infelicidade. Mas eu o amo tanto, que procuro deixar isso pra meus pensamentos que estão sendo enfileirados pra a latinha de lixo.
Duas semanas e meia se passaram, comecei a notar uma diferença na voz dele ao falar comigo, no olhar que desviava propositalmente, nas satisfações ausentes... Parecia existir algo estranho entre nossa relação. Podem ser coisas de minha imaginação, mas no fundo eu sinto uma diferença entre nós dois. Parecia que por um tempo eu estava vivendo em um relacionamento solitária.
Tentei remontar mentalmente nossa história inteira, preenchendo com algumas expectativas e esperanças os buracos. Mas evidentemente parece que o sentimento que ele sente por mim, não tem sido mais o mesmo. Me pergunto mil vezes se são coisas do trabalho que esteja afetando seu estado emocional, ou que seja algum problema familiar... Na esperança de que ele ainda me ame e tudo isso logo passará. Embora eu esteja me enganando com essas falsas esperanças, eu busco uma idealização de que tenha realmente outros motivos dessa mudança comigo, com nós.
Tento manter contato, mas ele parece não fazer questão de atender minhas ligações, responder minhas mensagens e se quer me ver. Se ao menos ele me falasse o que está havendo, e eu soubesse onde está esse amor e promessas que me jurou... Eu talvez entendesse com mais clareza o que se passa, ao invés de se esconder feito criança. - Saiba que não estou nem um pouco afim de brincar de esconde-esconde, deixei isso lá na minha infância.
Três dias se passaram, conversamos. Não entendi muito bem os argumentos dele. Mas eu o amo tanto, que argumentos são o que menos importa pra mim. Ele é que importa! Estarmos juntos é o que importa.
Resolvemos manter a nossa relação, mesmo sabendo do súbito desamor que ele faz sentir por mim. Nessa história, acabo concluindo que sou apenas mais uma que vive um relacionamento só, e isso me tortura cada vez mais. Mas se for pra morrer, que eu morra de amor, de esperança, e não sem ele. E vou vivendo assim, sem saber os reais motivos daquelas mudanças repentinas, sem saber dos verdadeiros argumentos. Na esperança de que ele volte a me amar ou aprenda a me amar, como um dia eu imaginei que ele me amasse. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Eu acho que não presto

Eu sempre demonstrei esse ar de ingênua, acompanhada com timidez. Pra quem não me conhece suficiente é exatamente isso que sou: Tímida, quietinha, calada, com uma doce voz. Mal sabem o que se passa em minha mente. Se fosse possível ler, já teriam muitas pessoas nuas, mortas, abduzidas, loucas, e coisas piores.
Embora eu tenha sim uma pureza. Mas se você pensa que o meu normal é esse, engano seu. É que ser boazinha demais às vezes é chato, monótono. Um pouco mais de malícia é mais divertido, é mais excitante. Fui muito boazinha para uns, e vai ver, por isso que não sou a pessoa certa pra ninguém. Com exceção de você. E sabe? Acho que prefiro assim, até eu me cansar desse personagem antagonista da história.
Um pouco de malícia em mente, em opiniões, em desejos, em roupas, em percepções, em atitudes, qual o mal dessa malícia? Se ela me fizer maliciosamente feliz até então, acho que é válido. Um preto básico ali, um decote aqui, cabelos soltos, um batom vermelho, um salto pra combinar. E... Orrevuá!
Digo sim quando to afim, sem preocupações do que vão achar. Homens me atraem e até demais. “– Aquela bunda, minha nossa!” Qual o mal? Eles podem comentar e eu não? Tenho desejos também, libido e muita energia pra gastar.
Sou feita a base de grandes mistérios, e não me contento em ver você se martirizar por conta de um só. Jogo um charminho, um olhar, enquanto te conto uma história engraçada, te fazendo idealizar meu verdadeiro eu e de que mundo eu vim. É como se fosse um truque de magia. Faço uns movimentos leves e imperceptíveis no cabelo, e você automaticamente se desprende do que eu falava para observá-los. Não que eu aja sem decência, longe de mim, mas é que eu gosto de brincar com esse mistério, de te conturbar mentalmente. De te deixar construir um personagem de uma história qualquer, com duas palavras apenas. Pois o mistério, o silêncio e o olhar que desvio de ti, cria expectativas e ideias de um ser.
É assustador minha personalidade, e meu olhar interrogativo e profundo. Parece que você tentar desvendar os meus pensamentos e descobrir quem sou, se atirando nos meus olhos, como se atirasse desesperadamente de um precipício. Eu poderia pedir pra você desistir, mas não, acho que não presto o bastante pra isso. Pois sei das minhas segundas, terceiras e quartas intenções, embora eu tenha um lado pretensiosamente doce que você não vê. E essa minha pretensão, faz parte de meu chame, meu bem.
E vou me deliciando nessa troca de informações misteriosas, medidamente ingênua e domadora.

Seu interior, bela moça

Não precisa dizer que me ama, eu não preciso nem ouvir da tua boca essas palavras. Não que eu não queira ouvir isso de você, junto com tua suave e doce voz, que me flutua imaginariamente. Mas é que simplesmente eu quero sentir esse amor. Assim como sinto amor ao te ver deitada nua na minha cama, como uma moça virgem, possuidora de um olhar devorador, em que eu me apaixono sempiternamente.
Toda manhã quando me deparo com essa cena, me vejo cada vez mais próximo da morte. Morto de paixão. Assim como as pessoas costumam dizer que estão “mortos de fome”, “mortos de sede”, “mortos de vontade”. Sinto-me morto de paixão. É, acho que estou morto. Um eterno morto apaixonado.
Preocupa-me que a cada momento, quero sentir mais. É quase que inevitável não querer. Parece não ter fim, te ambicionar. Basto olhar o teu sorriso largo e expressivo, suas provocações e quero logo sentir tua boca, tua pele, teu perfume sutil que me inala, com mais clareza do seu interior.
Quero que demonstre esse amor que você diz sentir por mim, quero que você me comprove e que meu coração aprove. Não basta só me dominar, me enfeitiçar, ser fatal, me olhar dentro dos olhos de baixo pra cima, e nem cruzar suas pernas provocantes e bem torneadas. Não quero ilusões, quero sentir sem medo, quero ver suas melhores intenções, bela moça que me assassina de paixão. Dessa maneira seria mais fácil pra mim, quero mais do que palavras pra mostrar que você sente. Que o teu amor é autêntico. Sou assim, encantado, descobridor dos seus mistérios, e inseguro como um jovem apaixonado.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Coração pode não ser amor

Durante uma breve viagem de ônibus e em meus pensamentos desordenados, uma conversa ao lado me desprende desses pensamentos oscilantes. Vejo duas mulheres conversando. Inconscientemente, começo a prestar atenção na conversa das duas, e algo que uma das duas fala me desperta a atenção: “– Ela trabalha como voluntária e faz isso com amor, de coração.” Diz uma delas.
Fiquei intrigada com a questão dessa associação da moça. E me pergunto: Por que quando alguém faz algo com amor, tem que ser de coração? Por que coração, ao invés de fígado? Pâncreas? Rim? Pulmões ou estômago?
Quem decretou que o amor é sentido pelo coração? Você sente seu coração diferente quando está apaixonado? Sim? Quem não te garante que isso é seu cérebro trabalhando, dizendo essas coisas clichês que as pessoas dizem?  “Quando se ama é de coração.”
Sei que pode ser um pensamento absurdo da minha parte, devido a essa associação da cultura humana, referente ao amor com esse órgão. Mas se for pra analisar, é algo que pode ser pensado melhor. E possivelmente você fique realmente se perguntando o porquê do coração ao invés de outro órgão. Essa afirmação absoluta da sociedade é baseada em fantasias.
As pessoas ficam sim, com o coração acelerado quando vêem a pessoa amada. Mas isso não quer significar que o coração está relacionado ao amor ou a paixão. Isso quer dizer que seu coração e seus impulsos nervosos estão trabalhando. E se o coração caracteriza o amor, a voz rouca, a voz trêmula, a voz tímida, significa o que? Essas reações também são estimuladas quando se depara com a pessoa amada.
Uma pessoa que trabalha voluntariamente, uma pessoa que arrisca sua vida pra salva outras vidas... Nem sempre quer dizer que ela faz isso por amor, ou por coração. Ela simplesmente pode fazer isso por questão de evolução espiritual. Afinal, quando morremos, o primeiro órgão que deixa de funcionar é o coração, mas nossa alma permanece “funcionando”. Nossas atitudes não são baseadas em uma dependência de nosso coração ser bom ou ruim. Nossas atitudes estão em nossa alma. É a nossa alma que guarda nossa evolução e involução. A alma é velha, é ela que é capaz de amar, de salvar, de tomar atitudes de amor. É notório isso quando fazemos o bem e sentimos uma sensação única, uma sensação de bem estar. De bem estar consigo mesmo. E não é só o coração que sente esse bem estar, o corpo todo sente. Internamente e externamente. Inclusive o fígado, pâncreas, rim, pulmões e estômago.

sábado, 2 de junho de 2012

Mãos são autênticas

Formadas por unhas, dedos, peles, rugas, traços, digitais, formam-se as mãos. Uma mão pode ser bem reveladora, ela transparece a sua idade, por mais que você queira camuflar essa informação. Pois a mão é o sinal de velhice, de juventude. Ela envelhece antes que você possa imaginar. Não adiantam “ir contra a mão”, mãos são rebeldes, impulsivas, curiosas. Mãos têm vontade de tocar, de sentir. E em quatro paredes, elas querem conhecer todo o caminho de um corpo. Mãos são habilidosas, são quentes, são frias.
As mãos que batem, são as mesmas que cuidam. As mãos que apontam, são as mesmas que pintam. As mãos velhas, são as mesmas que hoje estão cansadas. As mãos enfeitadas, são as mesmas criativas.
Mãos podem ser pequenas, grandes, macias, grossas. Mãos podem ser diferentes, podem ser iguais. As mãos são tão denunciadoras que podem comprovar aquele ato cometido, seu grau de higiene, sua vaidade, seu comodismo. Ela também pode comprovar as marcas de uma vida sofrida, a história de traços familiares, de acidentes acontecidos.
Mãos são assim, abertas ou fechadas, quentes ou frias, pequenas ou grandes, mãos são indiscretas, são verdadeiras, são pegadoras.

Bom demais pra ser verdade

Acordo das mais belas formas que se pode acordar, ao canto dos pássaros. Parece que o canto, fluidifica a alma. Espreguiço-me calmamente, aproveitando cada esticada do corpo. Saio da cama com o pé direito, na intenção de que todo o resto do dia permaneça maravilhoso, assim como está começando. Abro minha janela e recebo aquele calorzinho do sol. – Bom dia, sol! Bom dia, dia! Bom dia, natureza linda que nos pertence!
Caminho até o banheiro. Escovo os dentes, tomo um banho quente, saio de lá, toda animadinha. Sinto-me inspirada pra escrever qualquer coisa, qualquer assunto que me traga mais alegria. Minha criatividade está a mil, sinto-me criativa pra produzir até uma enciclopédia. Mas antes disso, preciso matar o eco responsável pelo meu piedoso e faminto estômago. Preparo uma mesa digna de três pessoas, com frutas, manteiga derretida no pão quentinho, suco de laranja, café cheirando e lá vou eu começar a matar quem está me matando. Afinal, a única coisa que me incomoda no momento é a fome, o resto está divino. Divino até demais. – Estranho eu não ter chutado a cama ainda, ou derramado o café sobre a mesa.
Após o maravilhoso café, coloco a ração do Ruberth, meu gatinho manhoso, e coloco Caetano, pra ocupar o silêncio de minha alegria desconhecida.
Pego lápis, meu bloco de anotações, o notebook e sento-me no tapete da sala. Espero que seja o suficiente pra produzir o texto do dia. Faz quatro dias que não produzo nada. Acho que toda essa minha alegria e inspiração seja útil.
Ao som de Caetano, começo a escrever uma história diferente do que costumo escrever, talvez com um pouco mais de naturalidade e fácil compreensão aos meus leitores. Sorte (ou azar) deles, por não ter que utilizar de força bruta dos neurônios deles, dessa vez.
Já eu, enquanto uso dos meus neurônios pra escrever algo que preste, sou interrompida com uma ligação no celular. Pego o celular, olho quem é, é o Sérgio, um cara que conheci em uma divulgação do livro de uma amiga. Depois da divulgação do livro, saímos pra tomar dois drinks, trocamos telefones e compartilhamos alguns interesses incomuns. Uma pouco mais de uma hora, me arrependi completamente. Acabei tomando quatro drinks e um apelido de “fofinha-grosseira”. Ele tomou sete drinks, e acho que da até pra imaginar o que o influenciou ele a me apelidar indiscretamente assim.  – Puta merda! Tava indo tudo bem, se esse cara chato não viesse perturbar a minha paz. Quem ele acha que é pra me apelidar de “fofinha grosseira”, no primeiro dia que me conhece? Ta na cara que fofinha é sinônimo de gorda! E eu nem to tão gorda assim... Tenho até freqüentado mais as aulas de pilates. Grosseira? Grosseiro é o pai dele! E ele que é estupidamente grosso por tratar uma dama assim. Abusado.
Eu não atendi aquela ligação. Volto a minha concentração, depois de uns pensamentos conturbados por conta desse rapaz, e continuo com o meu texto.
Quinze minutos depois, o celular toca novamente. – Que infelicidade, quem será desta vez? Ele. – Mas que merda esse cara quer comigo? Já não foi o suficiente o chega pra lá que dei nele, naquela noite? Vá tratar outras grosseiramente meu filho. Não que eu deseje isso pra outras, mas que ao menos fale isso pra mulheres de seu nível.
Depois de muita insistência, resolvo atender o celular, soltando faísca pelo nariz, ouvido, boca, vagina, poros, ânus... – Alô? Sérgio? Você não tem o que fazer não, queridão? To trabalhando, não tenho tempo pra você agora. E acho que nem amanhã, nem depois, e nem depois! Eu quero mesmo é que você... Interrompida por Sérgio, ele diz: – Desculpe-me pela aquela noite, eu havia bebido demais. E mesmo que você não tenha tempo pra mim hoje, amanhã, depois e depois, gostaria que soubesse de um projeto que estou desenvolvendo, e acho que estou precisando de uma profissional a seu nível. É um projeto de uma Revista Americana, se tiver interessada na proposta, quando poder e quiser, me retorna. Até breve. Tu-tu-tu-tu-tu.
– Ok, aonde eu enfio a minha cara agora? Senhor Deus, tem como abrir um buraco de 500 mil metros só pra eu soterrar meu cérebro, junto com a minha vergonha?
O cara acaba de me fazer uma proposta indecentemente genial. Enquanto há cinco minutos, eu estava chingando a geração familiar dele toda. Ca-ram-ba! Inacreditável. Acho que foi por isso que acordei alegre. Acordei com pré-alegria. Senti uma alegria antes de receber a notícia. Sei que vai ser de extrema importância pra minha carreira essa experiência. E é claro que vou aceitar essa proposta brilhante. Mas devo ser um pouco orgulhosa, em respeito ao meu ego feminino. Óbvio! Ele me chamou de “fofinha-grosseira”, ainda não me esqueci do apelidinho “carinhoso”.
Parando bem pra pensar, ta meio que estranho tudo isso que está acontecendo. Acordo bem humorada, tudo está dando certo. Será que Deus ouviu minhas preces? Ou será que ele cansou de ouvir: – “Caralho! Meu dedinho! Maldita cama!” e resolveu poupar os ouvidos?
– Cris? Cris?
– Oi, oi Nanda, o que houve?
– Minha filha, tem um tempão que eu te chamo e nada de você acordar. Você não produziu nada até agora. Ficou o tempo todo dormindo em cima das teclas. O máximo que conseguiu hoje foi “aqefgy”, digitada por sua testa.
– Como?
– É querida, passou a manhã ai dormindo. Chega babou de tanto que sonhou.
– Meu Deus! Foi um sonho?
– Do que você ta falando mulher?
– Do Sérgio, da linda manhã, do canto dos pássaros, do som de Caetano, do eco estomacal, do Ruberth, da proposta da revista Americana! Foi sonho? Claro. Bom demais pra ser verdade.  Eu não tenho gato, meu CD de Caetano está arranhado, e que eu me lembre... Não conheço nenhum Sérgio. Não sei por que eu ainda me iludo com essas coisas. Pelo menos, isso me restou uma nova história pra produzir.
Celular toca com o contato chamado Sérgio.

Quero

Eu quero um mundo melhor, onde exista chuva, vento e sol. Quero poder andar livremente nas ruas, sem roupas, completamente nua. Quero me jogar na sua alegria, pegar tua boca e te beijar todo dia. Quero viajar nesse mar, conhecer novos lugares e quem sabe te levar.
Quero desvendar o mistério que vive nos teus olhos, menino eu te observo, e não é de hoje que te namoro. Quero saber de suas melodias, o que houve e o que te contagia. Quero saber as cores do seu jardim, se for preto e branco, quero colorir. Quero beber uns wisks, vodkas, vinhos, ficar bêbados e dançar juntinhos. Colocar uma música, sentir o som e curtir o jazz. Quero correr pelo mundo, conhecer Austrália, Veneza, Luxemburgo. Quero transar com outras pessoas, fumar um cigarro e ficar de boa. Quero comprar livros novos, enfeitar minha estante, quero ficar culta, ser mais elegante. Quero trocar o forro do sofá, pra quando você vier aqui, eu te jogar e namorar. Quero usar roupas diferentes, pra ver se pareço com cara de gente.
Quero mais amor, quero mais união. Quero tudo e não quero um não. Quero sair, me divertir, quero gritar e ser feliz. Quero menos preconceito, menos injustiça, quero fidelidade e menos preguiça. Quero ter respeito, quero gratidão, quero sentir essa nova sensação.