Observo o andar das pessoas em que vejo nas ruas. O olhar que elas fazem ao ver uma garota gorda, fora do padrão de beleza. Observo a reação que elas têm ao ver um cadeirante. Observo os sapatos feios, os mais belos, os mais altos, os mais baixos, os mais fechados, os mais coloridos. Observo as roupas bregas e as roupas luxuosas das madames. Observo as crianças que gritam com os pais. Observo as pessoas que falam alto no celular e as que falam baixo no celular. Observo as pessoas que param em um ponto fixo com o olhar e sonham ali, acordados. Observo cada detalhe da face humana e começo a me perguntar do porquê de existir pessoas bonitas com pais feios, ou pais bonitos com filhos feios, não acha misterioso?
Observo a vizinha com cara de irritada, resmungona, que fala alto, aparentando seu atual período da menopausa, que não gosta de cachorros, mas escuta boas músicas. Observo a menina falastrona que tem medo de falar em público. Observo o rapaz que bate nos bolsos a cada quinze minutos, só pra ter a certeza de que suas coisas estão nos bolsos. Observo a moça com cara de intelectual, que vive cheia de livros, falando que anda cansada por estudar muito, mas nunca passa em se quer um concurso há seis anos. Observo a rotina do velho que gosta de gatos e faz dos seus gatos a substituição pela dor da perda da sua amada, que ainda vive em seu coração. Observo quanto tempo a rosa abre e mostra toda a sua beleza interior, desmentindo os seus cravos que trazem dor. Observo o olhar que me dá medo, que cada gato tem, com o seu jeito arisco, independente e solitário.
Observo como as pessoas me olham e fico imaginando o porquê elas me olham. Porque me acham bonita, feia, estranha, se eu estou com o queixo sujo, se aparento ser velha, inteligente, complexada, burra, metida, desarrumada, mal educada, interessante ou talvez meiga. E se não me olham, por que não me olham? Enfim, todo esse mistério, todo esse suspense, ao mesmo tempo, por mais gritante e mudo que seja me atrai.
Acho interessantes essas pessoas que tem sua agendinha secreta, suas confidencias mentais. Preferem manter-se privado, não saem por ai contanto tudo o que fez ou deixou de fazer. O mistério e a privacidade, de certo modo andam interligados. O mistério pode ser o sobrenome daquele rapaz que se passa às vezes despercebido, pois ele não faz questão de mostrar pra a sociedade quem ele é, o que ele faz, quem ele come quando está solteiro, quem ele se relacionou à duas semanas atrás. Ele prefere manter a privacidade, o anonimato. Ele evita as causas, as polêmicas, ele quer se trancar no seu apartamento bolha, beber seu vinho caro e comprar novas gravatas, usar perfumes caros que não seja nem tão forte, nem tão fraco, ele usa o cabelo bem arrumado, joga vídeo-game nas horas vagas, separa suas cuecas por cor, livros por espessuras das capas, e exala intelectualidade. Além de misterioso, sua preferência é por mulheres misteriosas também. O que ele faria se ele comesse uma mulher que usa roupas extravagantes, falasse “pobrema” ao invés de problema, e usasse decotes excessivos? Pra onde iria todo o seu anonimato e privacidade?
O mistério. É isso o que causa na cabeça das pessoas. Ele alfineta a imaginação de cada um, faz descrever a vida daqueles que você apenas dá um “bom dia” sem graça (só pra não se passar de mal educado), com hálito de creme dental. Ele limita e delimita, ele cria identidade, ele é secreto, ele cala a boca, ele abre a boca, ele é oculto. Ele desvenda elementos que você não tem conhecimentos, ele conta, ele dá nomes e sobrenomes, ele fofoca, ele revela, ele da existência a protagonistas e antagonistas, ele cria a história que você não vive, mas que você imagina. Assim como a vida do cara intelectual. O mistério tem vários roteiros, basta ver a história do pensamento de cada autor.